sábado, 28 de abril de 2012

SOPHIA LOREN - UMA DAS ATRIZES MAIS FESTEJADAS DE TODOS OS TEMPOS, UMA DAS POUCAS ATRIZES QUE INTERPRETAM TODO TIPO DE PERSONAGEM, E SEMPRE NUM REGISTRO DIFERENTE, É COM CERTEZA A MAIS FAMOSA ATRIZ ESTRANGEIRA DE TODOS OS TEMPOS. - PRIMEIRA PARTE.










  SOPHIA LOREN - parte 1



       Um rosto inconfundível, de uma assimetria estranhamente bela.
Sem retoques, natural como Sophia semprefez questão de ser. Exuberante, ardente, romântica, batalhadora incansável, ela é um simbolo de mulher latina.

 

Maio de 1949. A produtora norte-americana que está filmando "Quo Vadis?" na Itália pede milhares de figurantes para as grandiosas cenas de multidões que seriam o ponto alto de uma produção épica bilionária.
No meio da multidão que se acotovelava diante das portas da Cinecittà, duas mulheres abrem caminho aos empurrões. Não é fácil passar pela barreira dos selecionadores, mas, entre gritos e palavrões no sonoro dialeto Romano, as duas conseguem entrar. A mais velha aparenta uns 40 anos. Bonitona, chama-se Romilda Villane, e é Napolitana. A mais nova, belíssima, é sua filha Sofia. Antes da guerra, Romilda ganhara um concurso organizado pela Metro-Goldwyn-Mayer, que a escolheu como a sósia de Greta Garbo,  com oferta de um contrato nos EUA. Mas a falsa "Rainha Cristina" (foi assim que desfilou no Teatro Adriano de Roma) não chegou a atravessar o Atlântico. Sua fracassada união com Riccardo Scicolone a retivera na Itália. Estava certa de que encontraria um meio de realizar suas aspirações artísticas, mas só conseguiu alguns contratos em pequenas cia de variedades, cantar algumas canções em locais modestos, numerosas promessas que nunca se concretizara e muita, muita solidão.

QUO VADIS! (1950)


                               O pai abandona a família nos tempos difíceis

Sofia Scicolone nasceu em Roma, a 20 de setembro de 1934 (Ou ainda em 1930, segundo outros que a conheceram antes que se tornasse famosa). Logo o pai, Riccardo, abandona a família, depois de engravidar Romilda de novo. As dificuldades econômicas - agravadas pelo nascimento da segunda filha, Maria - obrigam Romilda a voltar a casa dos pais, em Pozzuoli, perto de Nápoles, onde já viviam dois irmãos e uma irmã. Apesar dos problemas que enfrenta como mãe solteira, a vida em família é preferível à miséria das pensões Romanas. A menina Sofia, apelidada de palito devido a sua magreza, cresce tranquilamente em meio à pobreza decente de uma família antiga e conservadora. O avô Domenico, um homem calmo e excelente operário, confia a educação da neta a um colégio de freiras. Cedo, porém, Sofia conhece as privações e o terror de uma nação mergulhada na gerra. A Itália se envolve no conflito em junho de 1940, começando a mais dolorosa experiência de sua história desde os tempos de unificação nacional, no fim do século passado. Nápoles, porto e centro industrial, tem de se adaptar aos bombardeios, à vida nos abrigos, à escassez de comida e água - em suma, a todas as desgraças inerentes a um conflito desse porte, um conflito que a Itália está perdendo.e o fim da gerra não significa um retorno imediato à normalidade. Em toda a região napolitana, as dificuldades e a miséria persistem por anos.
 A beleza, um instrumento para Sofia ganha rapidamente formas de mulher e, talvez incentivada pela mãe, logo decide fugir do anonimato. Quando está no segundo ano de magistério, em setembro de 1949, resolve participar de um concurso de beleza da região, para eleger a ''Rainha do Mar'' e um séquito de doze princesas. Usando um vestido de noite feito em casa, com o pano de uma cortina da sala, Sofia está entre as 375 concorrentes. Consegue ficar entre as doze princesas e recebe vários  prêmios: 25 000 liras em dinheiro, um corte de tecido, um servido de mesa e 28 rolos de papel de parede.a fugir da miséria

                          



                                                      O cinema e o sonho


Convencida de que está no caminho certo, e sempre apoiada pela mãe, troca o colégio por uma modesta academia de arte dramática. Seu sonho é o cinema, e para realizá-lo aceita posar - ligeiramente vestida  - para cartões postais e fotos endereçadas aos produtores romanos. O começo é difícil. A primeira oportunidade, em ''Quo Vadis?(Idem, 1950)'' de Mervyn Leroy indicado a oito Oscar, inclusive de melhor filme, resume-se a duas noites de trabalho, ao lado da mãe, numa cena de multidão com 3.000 figurantes; o filme fica no Top Ten Films da National Board of Review, USA  de 1951.
Nesse mesmo ano de 1949, ela participa de outro concurso de beleza, desta vez para escolher a ''Rainha das Sereias do Adriático''. Sofia Villani não consegue colocar-se nem mesmo entre as damas de honra. Sem muito escolha, volta, volta-se então para um gênero popular de grande sucesso: a fotonovela.

                                       Uma beleza violenta e agressiva


Inventada na Itália depois da guerra pela mente criativa do editor Cino del Duca, as fotonovelas logo se popularizam, começam a criar seus próprios ídolos e se difundem em grande escala.
Uma das revistas mais procuradas é Sogno, que no dia 15 e3 dezembro de 1949 anuncia uma nova história, Não Posso te Amar, interpretada por Cottado Alba e Sofia Lazzaro, ''uma beleza violenta e agressiva''. Tratase de Sofia Scicolone, depois Villani e agora Lazzaro.
Cada episódio é produzido em cerca de dez dias e proporciona a Sofia 30 000 liras e uma certa notoriedade entre os 500 000 leitores da revista.

Um trabalho bem mais leve e mais bem pago.

Teimosa, porém, ela insiste com o cinema e, em 1950, consegue participar de vários filmes pouco importantes: ''Maridos e Esposas(Luci del Varietà)de Federico Fellini e Alberto Lattuada'', ''O Voto(Il voto)'', ''Sou o Capataz(Io sono il capataz)'', ''Le sei Mogli di Barbablú'',  ''O Coração do Mar(Cuori sul mare)'' esse último por coincidência também fazendo uma ponta antes da fama, aquele que seria seu maior parceiro Marcello Mastroianni. O trabalho lhe rende 30 000 liras por dia e é bem mais leve que as fotonovelas.

         "Miss Elegância" conhece um simpático jurado: Carlo Ponti

 No verão de 1950, Sofia tenta novamente os concursos de beleza. Desta vez porém, trata-se de disputar o título de "Miss Itália". Não tem nenhum voto como candidata ao título máximo, mas nem por isso sai de mãos vazias: é eleita "Miss Elegância", um belo prêmio de consolação. Além disso, um dos jurados - advogado, falante, baixinho e um tanto rude, produtor por profissão - fica muito interessado nela. Seu nome é Carlo Ponti. O relacionamento que nasce aí seria de importância fundamental para o futuro de Sofia - como atriz e como mulher. De volta aos dramalhões de amor e morte e aos papéis anônimos, Sophia continua firmemente decidida a vencer. Em 1951, participa de seis filmes que nada acrescentam ao seu currículo precário - com exceção de "É Arrivato I'Accordatore", em que o nome de Sofia Lazzaro aparece pela primeira vez - embora em último lugar e em letras minúsculas, no filme, neste mesmo ano novamente seu nome aparece nos créditos do filme ''Era Ele/Era Lui!... Si! Si!'', de Marino Girolami, Marcello Marchesi e Vittorio Metz, porque neste filme que é aparece o célebre topless de Sophia Loren, vestida (!!!) de odalisca e creditada como Sofia Lazzaro, quando Sophia ficou famosa várias fotos de Loren com seios nus foram exibidas mundo afora. Em 1952, ela participa do filme "Mercado de Mulheres (La Tratta Delle Bianche), uma história sobre prostituição, baseado em fatos reais. Entre vários nomes de destaque - Eleonora Rossi Drago, Silvana Pampanini, Vittorio Gassman, Ettore Nanni - , Sofia faz uma personagem secundária, uma mãe solteira que, segundo o roteiro, (cai nas mãos de um bando sinistro de aproveitadores). Pouco depois, a atriz parte para a região do mar Vermelho, onde participa de um filme fraco, mas importante para sua carreira: "Àfrica sob o Mar(Africa sotto il Mare, 1952).

         Surge a atriz SOPHIA LOREN, bonita até debaixo da água

 O diretor de ''África Sob o Mar'', Giovanni  Roccarde, está mais interessado nos efeitos de luzes e cores das tomadas submarinas do que propriamente na trama, e Sofia se vê obrigada a tomar aulas de natação e mergulho. Essa curiosa experiência rende bons frutos para a carreira: consegue aparecer em segundo lugar no elenco, depois do americano Steve Barclay. Graças ao físico exuberante, é incluída na galeria privilegiada das atrizes de grandes curvas chamadas de Maggiorate. E, principalmente é rebatizada pelo produtor com um nome "Mais internacional" - Sophia Loren.  1953 é um bom ano para a atriz, que participa de dez filmes, que lhe dão independência financeira e grande popularidade. Sophia não se preocupa com o nível, nem com a qualidade dos filmes em que trabalha. Para ela, o importante é ganhar experiência, Sejam quais for o diretor e os atores, seja qual for o tipo de filme. Contudo, ela consegue três grandes oportunidades: uma proporcionada por um diretor consagrado, Alessandro Blasetti, outra por um iniciante, Ettore Giannini. Com Blasetti, ela interpreta o episódio "A Maquina Fotográfica", do filme "Nossos Tempos (Tempi Nostre, 1953)", ao lado do comediante Totó: vive as experiências surrealistas de uma jovem que serve de modelo para um fotografo lunático, em situações bem semelhantes às que vivera quando era Sofia Lazzaro; uma curiosidade: nesse filme de episódios Marcello Mastroianni também participa, mas é no terceiro em que ela recebe seus primeiros elogios como atriz; ''Aida/Idem'' é um filme italiano de 1953, versão da ópera Aida de Giuseppe Verdi. Foi dirigido por Clemente Fracassi e produzido por Gregor Rabinovitch e Federico Teti. Renata Tebaldi foi originalmente escalada para interpretar Aida, mas ela decidiu não aparecer no filme. Gina Lollobrigida também foi considerado para o papel, antes de Sophia Loren. Este foi o primeiro papel de liderança de Loren com destaque. O desempenho de Sophia Loren foi recebido com aclamação da crítica por seu papel como Aida. Nesse mesmo ano ela faz  ''A Invasão dos Bárbaros/Attila" de Pietro Francisci que é um filme fraco, mas em compensação foi um enorme sucesso de bilheteria, ganhando US $ 2 milhões nos seus dez primeiros dias de seu lançamento só nos E.U.A., ao lado do amigo Anthony Quinn. Junto com o ''Orgulho e Paixão/The Pride and the Passion" e ''Tentação Morena/Houseboat" que foram os maiores sucessos de Loren nos anos de 1950 .

       Sophia faz vários papéis em "Carrossel Napolitano", sua primeira grande oportunidade

Ela participa da estréia no cinema do diretor italiano Mauro Bolognini, diretor dos ótimos (''A Longa Noite de Loucuras/La Notte Brava'', ''Metelo/Idem'' e ''O Belo Antônio/Il Bell'Antonio''), em ''Ci Troviamo in Galleria'' de 1953; a trilha sonora se destaca a interpretação do famoso "La Vie en Rose" de Nilla Pizzi em italiano. Com Ettore Giannini, Sophia consegue uma interpretação brilhante e cheia de energia em "Carrossel Napoloitani (Carosello Napoletano, 1953)", uma aventura através do passado e do presente de Nápoles. Um filme fantasioso, dirigido com muito cuidado por Giannini, em que Sophia Loren interpreta vários papéis: uma dançarina de cabaré, uma moça apaixonada, uma artista de circo. Não se exige dela que seja uma atriz nesses papéis, mas que seja ela mesma, que explore sua personalidade. Carrossel Napolitano é a oportunidade tão arduamente esperada. Sophia passa por esse teste difícil com a vitalidade e a força de sua interpretação natural, de sua presença sempre sincera, filme premiado no Festival de Cannes e na Espanha foi eleito o melhor filme estrangeiro do ano. Esse papel lhe garante o trabalho seguinte: também ambientado em sua cidade de infância: "O Ouro de Nápoles(L'Oro di Napoli, 1954)", filme de episódios dirigido por Vittorio de Sica, que também conta com a talentosa atriz Silvana Mangano. 
CARTAZ  "O Ouro de Nápoles(L'Oro di Napoli, 1954)",


Com experiência e habilidade, De Sica faz de Sophia Loren um sucesso

De Sica destina a Sophia o episódio "Pizze a Credito", rebatizado nas telas como "La Pizzaiola". è a história de uma moça do interior enérgica e falante - por mera coincidência, também chamada "donna Sophia". No texto original - , que luta para provar sua fidelidade ao marido. Guiada por um hábil construtor de atores, La Loren constrói a personagem com uma precisão de gestos capaz de convencer os críticos mais empedernidos. Sólida e forte, sua presença física marca bem a personagem de pizzaiola um apelido que acompanha a atriz por anos, uma mulher de caráter e saudável e plebeu, sujeita a explosões violentas e famosa pelos desafios com as mãos apoiadas nos quadris, o filme é selecionado a Palma de Ouro em Cannes de Melhor Filme e deu a Vittorio de Sica, o Golden Goblets, Italy de melhor diretor daquele ano. O filme seguinte também é um sucesso graças ao roteiro do estreante e futuro grande diretor Pier Paolo Passolini "A Mulher do Rio (La Donna del Fiume, 1954)" de Mario Soldati. Com o comediante Totó, outro sucesso; "Miséria e Nobreza (Miseria e Nobilitá, 1954)" de Mario Mattoli.


   Sophia Loren-Vitorio de Sica-Marcello Mastroianni, o grande trio de ouro

Chamada para interpretar "Bela e Canalha (Peccato che Sia una Canaglia, 1954)", ao lado de De Sica e Mastroianni, filme pelo qual ela ganha o seu primeiro prêmio de Melhor Atriz no Festival da Argentina, Sophia forma com eles que fará também "A Bela Moleira (La Bella Muginaia, 1954)", uma versão de peça "O Chapéu de Três Pontas", de Pedro de Alarcón. Nesses dois filmes - comédias de costume, um filão de ouro para ela - Sophia prova que seus recursos vão muito além de um corpo belíssimo. O ano de 1955 - em que faz os filmes "O Signo de Vênus (Il Segno de Venere)", "A Sorte de Ser Mulher (La Fortuna di Essere Donna)", este último, ela contracena com o internacional Charles Boyer e seu parceiro de sempre Marcello Mastroianni - é muito positivo para La Loren. Não tanto por esse filmes, mas porque a atriz resolve exportar sua carreira; nesse ano o melhor filme é o qual ela trabalha com Vittorio de Sica como ator "Pão, Amor e ...(Pane, Amore e...) de Dinno Risi; ela faz o papel de dona Sophia, o filme ganha uma Menção honrosa no Festival de Berlin, além do David di Donatello Awards(o Oscar do cinema italiano) de Melhor Filme e Melhor Ator para De Sica, nesse ano ela foi  capa de várias revistas entre elas, ''Paris Match Magazine'', pela primeira vez.
1955 - BELA E CANALHA/Too bad she's bad

             Sophia Loren vai a Hollywood por um caminho tortuoso

 Em agosto de 1955, Sophia aparece na capa da revista LIFE, que lhe dedica um longo artigo. Em dezembro, faz parte da delegação oficial que vai à Dinamarca, à Suécia e à Noruega, para as "Jornadas do Cinema Italiano". Acompanham-na Lea Massari e Silvana Pampanini. Nesse lance promocional, a habilidade de Carlo Ponti funciona admiravelmente: emquanto Lea pertence ao futuro da Cinecittà, e Silvana faz parte de seu passado recente, apenas Sophia é o presente. Por essa época, a atriz passa por momentos difíceis, quando comparece aos tribunais como testemunha num processo de difamação contra Nella Rivolta, a ex-esposa de seu pai, Riccardo Scicolone. O processo deve-se a uma afirmação de Nella, segundo a qual, Maria - irmã de Sophia - usava indevidamente o sobrenome do pai, já que teria nascido de outra relação. Sophia resolve dando uma boa quantia a Nella e ao pai, desde que deixasse o sobrenome do pai também para a irmã.
Em compensação, em 1956, Sophia viveria a aventura americana. Ponti programa minunciosamente um longo e complicado caminho para chegar a Hollywood: passa pela Espanha, pela Grécia e, finalmente, pela África.

         Na estréia fora da Itália, um romance com Cary Grant: e ele quer casamento

  Em seu segundo filme em Hollywood, "Orgulho e Paixão (The Pride and the Passion, 1957)", história de um grande canhão de bronze abandonado pelas tropas francesas e recuperado por guerrilheiros espanhóis, que utilizam para destruir uma fortaleza napoleônica (em 1810). Baseado num romance de C.S.Forester, o filme coloca Sophia entre dois monstros sagrados do cinema americano: Cary Grant e Frank Sinatra. Essa super-produção de Stanley Kramer, que está mais preocupado com a fotografia do filme, e o canhão, porém, é o luxuoso espetáculo. Durante as filmagens, Sophia mantém um romance com Cary Grant, que chega a pedi-la em casamento. Pouco tempo depois, eles se reencontram em outra filmagem, durante a qual surge a noticia da anulação do casamento de Carlo Ponti e, consequentemente, a possibilidade de legalizar sua relação com Sophia Loren. Cary Grant diz apenas a Sophia: -"Espero que você seja muito feliz".  Com a locação de bilheteria de US $ 4,7 milhões de um bruto de 8,75 milhões dólares, este seria um dos 20 filmes de maior bilheteria de 1957. Variety elogiou os valores de produção do filme, afirmando que "o crédito Top deve ir para a produção. As vistas panorâmicas longrange de a marcha e terrivelmente exército sobrecarregado, a luta dolorosa para manter o móvel arma através de ravina e sobre a via navegável - estas são as principais vantagens. " No entanto Ephraim Katz em The Encyclopedia Film descreve-o como "nonsense épico exagerada vazio", neste ano ela capa de várias revistas entre elas ''Paris Match Magazine'' e a ''Life''.
Em sua estreia em Hollywood, "A Lenda da Estátua Nua (Boy on a Dolphin, 1957)", não é muito criativa. De qualquer modo, essa história de uma pescadora de esponjas permite a Sophia viver alguns momentos espetaculares - principalmente uma longa série de sequências submarinas, que destacam magnificamente sua figura.
Na verdade, fascinado pela beleza de Sophia, o diretor Jean Negulesco (que também pintou vários retratos dela, mais tarde exposto numa galeria Romana) aproveita todas as oportunidades para colocá-la em situação vantajosa, compensando certos momentos desagradáveis que ela passa ao lado dos companheiros Alan Ladd e Clifton Webb; destaca-se além da beleza de Sophia, a bela trilha sonora indicada ao Oscar. O filme é notável como Sophia Loren em sua estréia no idioma inglês, embora também é notável por seu canto "T'in'afto pou para lene agapi" (O que é isso que eles chamam de amor), em grego moderno, muito elogiado pela a critica.
A Lenda dos Desaparecidos ( Legend of the Lost, 1957)"

Em "A Lenda dos Desaparecidos ( Legend of the Lost, 1957)", com John Wayne é uma aventura Africana, em que John Wayne continua representando um Cowboy durão. Sophia, ao seu lado, é um belo enfeite que o diretor Henry Hataway explora habilmente, mas Sophia tem uma bela cena de briga, onde ela bota abaixo John Wayne e Rossano Brazzi. 
Finalmente, depois dos encantos da Espanha e da Grécia, da areia e do suor do Saara, Sophia conquista - como queria seu produtor - o passaporte para Hollywood definitivamente. Começa com "Desejo (Desire Under the Elms, 1958)", uma peça de Eugene O'Neill, adaptada para o cinema pelo escritor Irwin Shaw, mais dirigido sem muito brilho pelo diretor Delbert Mann, a própria Sophia , declara que ela e o protagonista Anthony Perkins ( com aquela eterna cara de Norman Bates) carecem de química.
''Desejo'' destaca-se graças a bela fotografia de Daniel L. Fapp - indicada ao Oscar de melhor fotografia em preto e branco. Ela tem consciência dos riscos que corre, pois outras atrizes italianas, como Alida Valli e Isa Miranda, ''queimaram-se'' em Hollywood. Dois milhões de dólares por três anos de trabalho, porém, são muito convidativos, e outras atrizes italianas como Anna Magnani, Gina Lollobrigida e Claudia Cardinale, se deram bem em Hollywood; nesse ano ela foi  capa de várias revistas entre elas, ''Paris Match Magazine( duas vezes )'' e a ''Comopolitan Americana''.


   Carlo Ponti e Sophia Loren, um escândalo à italiana

Diversos problemas pessoais também contribuem para levar Sophia a Hollywood. Sua relação extramatrimonial com Carlo Ponti está sendo condenada pela conservadora opinião pública da Itália, e uma longa permanência no exterior poderia solucionar o problema. No dia 23 de setembro de 1957, os jornais noticiam que Ponti e Sophia Loren tinham se casado em Ciudad Juarez, no México.
O casamento no México (não válido na Itália) e as denúncias de bigamia feitas por cidadãos comuns contra Ponti e Sophia fornecem material para as crônicas escandalosas durante uma década. A situação é complicada, e o casal frequentemente tenta esclarecer as coisas valendo-se de sutis recursos legais, declarações e desmentidos. Se puséssemos os pés na Itália - conta Sophia - estaríamos sujeitos à prisão.
Ponti se casara em 1947, com Giuliana Fiastri. Tiveram dois filhos. Separaram-se em 1957 e o tribunal eclesiástico se recusou por duas vezes - em 1959 e 1962 - a conceder-lhes a anulação do casamento.
Na época o divórcio não existe ainda na Itália, e esse é o centro do problema. Como o arranjo feito no México é insuficiente, Ponti e Giuliana assumem a cidadania francesa. Em dezembro de 1965, finalmente, um tribunal de Paris lhes concede o divórcio.

No ano seguinte, Ponti e Sophia se casam na França, buscando colocar um ponto final nas lutas em defesa de sua união. ''Tentação Morena (Houseboat, 1958), dirigido por Melville Shavelson, é uma comédia leve que tenta e consegue combinar a proverbial elegância do cinquentão Cary Grant com a vivacidade mediterrânea da jovem Sophia, esse delicioso filme e indicado ao Oscar de melhor Roteiro e Fotografia do ano e da a Sophia um Prêmio de Atriz na Alemanha. As outras produções seguintes são despretensiosas mas rentáveis : ''A Chave(The key, 1958) de Carol Reed, foi rodado em Londres com William Holden, Trevor Howard, Bryan Forbes...
Bem melhor é o filme seguinte ''Mulher Daquela Espécie (That kind of woman, 1959) do talentoso Sidney Lumet, além Sophia, incluiu no elenco Tab Hunter, Jack Warden, George Sanders, Keenan Wynn, Barbara Nichols, Beatrice Arthur, Stephen Bolster..., com expecional fotografia de Boris Kauffman; o filme concorreu ao Urso de Ouro de Melhor Filme daquele ano; nesse ano ela foi  capa de várias revistas entre elas, ''Elle (italiana)'' e a ''Marie-Claire (francesa)''.
"Mulher Daquela Espécie" COM TAB HUNTER (acima)

No mesmo dia em que "A Chave" é exibido para a corte britânica (afinal, o diretor é "Sir" Carol Reed), Sophia e Ponti são processados por bigamia na Itália. Mas o grande acontecimento é na Inglaterra. Para ir à solenidade, Sophia se esmera na aparência e usa um penteado chocante, encimado por uma coroa. É apresentado à rainha. Uma gafe imperdoável, usar uma coroa na frente de sua majestade. É também uma promoção inesperada para a atriz. No dia seguinte, os jornais dizem:

 ''A Inglaterra agora tem duas rainhas.
 A Rainha Elizabeth e a Rainha Sophia.''


Outro daqueles filmes, ''A Orquídea Negra'' lhe traz o primeiro reconhecimento internacional importante e, o que é melhor, partido da Itália. Ela recebe um convite para ir ao Festival de Veneza de 1958. Como, se podia ser presa ao desembarcar? Ponti, o maior ''criminoso'', não vai, mas consegue garantias para Sophia ir. Ela vai e ganha a ''Coppa Volpi de Melhor Atriz do Festival''. Sophia também ganha seu primeiro David di Donatello Awards (o Oscar do cinema italiano), ainda em forma de placa dourada pela sua performance.

''Coppa Volpi de Melhor Atriz do Festival de Veneza por ''A Orquídea Negra'' 


O próximo filme ''Jogadora Infernal(Heller in pink tights, 1960)'' de George Cukor , é um western divertido baseado nas aventuras se uma cia teatral cuja prima donna é Sophia, com Anthony Quiin, Margaret O'Brien, Steve Forrest, Eileen Heckart, Ramon Novarro...
O filme é conhecido por seus trajes ricamente ornamentadas por Edith Head e sua fotografia impressionante em uso de Technicolor. Apesar de não ser um sucesso comercial, ''Heller In Pink Tights'', é considerado por alguns historiadores de cinema ricamente em visual dirigido por George Cukor que ser orgulhava de ter dirigido algumas das mais famosas atrizes da era de ouro de Hollywood, entre outras ( Marilyn Monroe, Greta Garbo, Joan Fontaine, Myrna Loy, Jean Harlow, Marie Dressler, Joan Crawford, Norma Shearer, Vivien Leigh, Claudette Colbert, Ingrid Bergman, Ginger Rogers, Shirley Temple, Shelley Winters, Lana Turner, Judy Holliday, Judy Garland, Ava Gardner, Anouk Aimée, Audrey Hepburn, Maggie Smith, Elizabeth Taylor e ainda se gabava de ter dirigido as duas maiores atrizes italianas de todos os tempos Sophia Loren e Anna Magnani).

''Começou em Nápoles(Il started in Naples, 1960), de Melville Shavelson, com um Clark Gable em má forma, só se torna interessante quando a atriz libera seu ''napolitanismo'', a química entre Sophia e o garoto Marietto é perfeita, tanto que Sophia é indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz. Este foi o último filme a ser lançado durante a vida de Gable (seu último filme, The Misfits , foi lançado postumamente) e seu último filme em cores. Um dos destaques do filme é um número tongue-in-cheek musical por Loren chamado " Tu vuò fà l'americano "(You Want To Be Americano), escrito pelo compositor napolitano famoso Renato Carosone. Filmado em locações em Roma, Nápoles e Capri , ''Começou em Nápoles'' foi nomeado para um Oscar por sua direção de arte. Nesse ano ela foi  capa de várias revistas entre elas, ''Paris Match Magazine (duas vezes)'' e a ''Marie-Claire (francesa)''.
''Começou em Nápoles(Il started in Naples, 1960) com Clark Gable


''O Escândalo da Princesa(A Breath of scandal, 1960)'', de Michael Curtiz (diretor do clássico Casablanca), baseado na comédia Olympia, de Ferencer Molnar, é uma sucessão de reverências, cumprimentos, delicadezas, valsas e frivolidades. O filme é ambientado na virada do século 20 e apresenta exuberante technicolor fotografia de Viena e no campo da Áustria. Os figurinos e iluminação foram projetados por George Hoyningen-Huene e executado por Ella Bei da casa de moda Knize na Áustria. Devido em parte à Michael Curtiz (já em fora de forma), direção do que Sophia Loren estava em desacordo com, o diretor italiano Vittorio De Sica foi contratado para refilmar algumas cenas com Loren depois de horas sem o conhecimento de Curtiz. Mas o filme fica devendo, apesar do elenco.

Bem melhor é a comédia ''Com Milhões e Sem Carinho(The millionairess, 1960),  baseia-se numa peça de George Bernard Shaw, e Sophia Loren contracena com Peter Sellers, eles em amba sintonia, muito bem coadjuvantado por Alaistair Sim, Vittorio de Sica, Gary Haymond....
O filme foi um enorme sucesso na Grã-Bretanha na época de seu lançamento, mas recebeu críticas mistas. No entanto, foi um sucesso internacional. Sellers e Loren cantam no filme, Martin encomendou David Lee e Herbert Kretzmer a escrever a canção. Martin produziu-se o registo. Martin imaginou a canção como uma gravação a ser incorporada na trilha sonora do filme. Os produtores do filme não concordar com isso, mas o estúdio estava feliz em ver a canção lançada como single autônomo para promover o filme. A canção se tornou um Reino Unido hit gráfico em 1960 e teve sucesso na divulgação do filme.


 Sophia Loren e Elvis Presley





sexta-feira, 13 de abril de 2012

40 ANOS DE UM CLÁSSICO - O PODEROSO CHEFÃO\The Godfather.




'O Poderoso Chefão' completa 40 anos de influência no cinema



Marlon Brando em cena do filme 'O poderoso chefão' (Foto: Divulgação)Marlon Brando em cena do filme 'O poderoso
chefão' (Foto: Divulgação)
Um diretor inexperiente, como Francis Ford Coppola, e um ator supostamente acabado, como Marlon Brando, aparecem como responsáveis por uma obra prima sem paliativos na história do cinema: "O Poderoso Chefão", que se transformou em um verdadeiro clássico e não perdeu seu vigor mesmo 40 anos depois.
O cinema de grande formato parecia coisa do passado. A grandiosidade épica era vinculada à última época dos grandes estúdios, uma relíquia que só diretores como David Lean sabiam realizar com dignidade.  Mas, um jovem diretor ítalo-americano chamado Francis Ford Coppola, que tinha escrito o roteiro de "Patton" e dirigido filmes medianos, encontrou no descalabro moral um novo código mitológico, assim como no proceder mafioso uma nova poética da violência e nas ruas de Nova York uma interminável paisagem de corrupção fascinante.
Apesar da desconfiança do projeto com a apologia da "Máfia", uma palavra que não podiam usar, Coppola começou a traduzir o livro de Mario Puzo ("The Godfather") em imagens que combinavam o clima siciliano com a dinâmica implacável do capitalismo na sociedade americana do século XX.
Os Coppolas, como se fossem um clã de mafiosos em si mesmos, também serviram de inspiração para outras partes do filme, se transformando em "O Poderoso Chefão". De fato, Coppola é o nome de um tradicional chapéu siciliano.
Para representar o verdadeiro Poderoso Chefão, o personagem Don Vito Corleone, Francis Ford Coppola convidou o que considerava o melhor ator de todos os tempos, Marlon Brando, que foi transformado em um carismático, agressivo e elegante ancião. Com este trabalho, o ator ganhava seu segundo Oscar.
O elenco ainda contaria com três atores secundários que se enfrentaram pelo mesmo Oscar - Al Pacino, Robert Duvall e James Caan - e com uma jovem Diane Keaton, que se inspirou na esposa do diretor, Eleanor Coppola, para construir o personagem de Kay Adams.
Para acompanhar as lendárias mortes, que eram cinematograficamente sofisticadas, Coppola usou uma trilha sonora inesquecível e que resgatava os melhores títulos de Nino Rota no cinema italiano. A fotografia, assinada por Gordon Willis, também se destacou na composição do filme.
"O Poderoso Chefão", além de ser artisticamente impecável e socialmente influente, continua sendo o mais pontuado na "bíblia on-line do cinema", o site Internet Movie Data Base (www.imdb.com), e se transformou rentabilíssimo economicamente. Na época, o orçamento do filme contou com US$ 6 milhões, mas o filme arrecadou mais de US$ 230 milhões no mercado internacional depois de seu estreia, no dia 15 de março de 1972. A rentável bilheteria se tornou um recorde e conseguiu desbancar a marca do filme "E o Vento Levou".
É claro que esse sucesso inicial supôs o princípio de uma histórica trilogia, que para muitos continuou com um filme ainda melhor, "O Poderoso Chefão: Parte II". A série foi encerrada já nos anos 90 com "O Poderoso Chefão: Parte III".

sábado, 24 de março de 2012

35 ANOS DE UM CLÁSSICO DO CINEMA - UM DIA MUITO ESPECAIL\Una Giornata Particolare.


35 ANOS DE UM CLÁSSICO DO CINEMA - NUM DUELO DE TITÃS DE UMA DAS MAIORES DUPLAS DO CINEMA DE TODOS OS TEMPOS - ''SOPHIA LOREN'' & ''MARCELLO MASTROIANNI''.

Um Dia Muito Especial / Una Giornata Particolare


Nota: ★★★★

Anotação em 2010: Um Dia Muito Especial, que Ettore Scola fez em 1977, é uma obra-prima, um filme maior. É uma daquelas pérolas perfeitas, em que tudo, todos os componentes, estão no seu lugar exato, não sobra nada, não falta nada.

A idéia básica da trama é brilhante – assim como o roteiro, os movimentos da câmara, a fotografia, os figurinos, a direção de arte, a trilha sonora, e a interpretação magistral dos dois atores, os monstros sagrados Sophia Loren e Marcello Mastroianni.

A idéia básica da trama: no dia em que os ditadores da Alemanha e da Itália, Adolf Hitler e Benito Mussolini, se reúnem em Roma, diante de uma imensa multidão, 8 de maio de 1938, um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, uma mulher e um homem se encontram pela primeira vez, no conjunto residencial em que moram, em um bairro de classe média da capital italiana.

Temos então aquela justaposição de um episódio da Grande História com uma pequena história de ficção, o macro e o micro, que costuma gerar grandes histórias, grandes filmes. E este aqui é um dos maiores de todos eles.

O filme abre com um daqueles cinejornais que, até os anos 60, passavam nos cinemas antes da apresentação do filme principal: cenas reais, em preto-e-branco, do primeiro dia da visita de Hitler a Roma. Um locutor, com aquele timbre típico dos filmes de propaganda governamental, chapa-brancas, usa todos os tipos de adjetivos grandiloqüentos e vazios que se usam nas propagandas governamentais, chapa-brancas. É um longo cinejornal, que deve beirar aí uns cinco minutos. Termina anunciando que, no dia seguinte, os dois líderes se encontrarão novamente para assistir a um gigantesco desfile cívico-militar, ao qual todos os romanos deverão comparecer.

Bandeiras nazistas desfraldadas, e um glorioso plano-seqüência

E então, quando passamos do cinejornal preto-e-branco para o filme em cores, vemos uma mulher desfraldar gigantescas bandeiras com a suástica nazista num conjunto de diversos prédios de apartamento.

Em seguida, há um magnífico, glorioso, espetacular plano-seqüência. A câmara vai mostrando um dos prédios, vai se aproximando da janela da cozinha de um apartamento – a cozinha do apartamento de Antonietta, a personagem de Sophia Loren. O plano-seqüência continua, sem corte algum: a câmara entra pela janela do apartamento e passa a seguir Antonietta. Ela está passando roupa; pega uma xícara de chá e vai andando pelo apartamento, acordando os filhos – um, dois, três, quatro. Perdi a conta do número de filhos. Antonietta depois dirá que são seis. E a câmara a segue pelos quartos da casa, sem corte algum. O penúltimo a ser acordado é o marido. No rápido diálogo entre ele e a mulher, em que ele reclama que ela está o incomodando desde as 5 horas da manhã e ela o informa de que já são quase 6, e ele reclama por ela não tê-lo chamado mais cedo, já ficamos sabendo como é a vida daquele casal.

Em um único plano, uma única tomada, Scola e seus co-roteiristas definem a personalidade de Antonietta. É a mulher escrava, a trabalhadora braçal, a parideira, aquela criação clássica das sociedades machistas – a mulher que obedece sempre ao marido, que faz tudo o que ele manda, que não tem vida ou vontade próprias.

Acontece, por mero acaso, de Antonietta ser uma mulher bonita. Mas os maquiladores, o figurinista, o diretor Scola e a própria Sophia Loren fizeram muito bem feito aquele trabalho de desglamourizar a atriz, a estrela linda, o monstro sagrado do cinema italiano; Antonietta nasceu bela, mas a vida a maltratou – é uma mulher cuja beleza foi enevoada pelo dia-a-dia de serva da casa.

Durante uns cinco minutos, acompanhamos a manhã da família numerosa. Todos estão se aprontando para comparecer à grande cerimônia, o encontro dos dois líderes dos países aliados. Vemos que o marido de Antonietta é um fascista de carteirinha, e toda a filharada é composta de aprendizes de fascistas.

Como cordeirinhos, todos vão aplaudir os ditadores

Numa seqüência também antológica, vemos todos os moradores do conjunto de prédios descendo de seus apartamentos à mesma hora, para irem todos, como cordeirinhos, como manda o manual das ditaduras, aplaudir seu líder máximo.

Só Antonietta fica em casa. Em todo o conjunto de prédios, ficam só Antonietta, a zeladora e um sujeito que mora sozinho em um apartamento do outro lado do conjunto, janela diante da janela do apartamento de Antonietta. O sujeito é Gabriele – o personagem de Marcello Mastroianni.

Scola e seus co-roteiristas Maurizio Costanzo e Ruggero Maccari escolheram, para fazer com que os destinos de Antonietta e Gabriele se cruzassem, a figura de um papagaio. O papagaio de Antonietta se aproveita do momento em que a dona abre a portinha da gaiola para dar comida e foge. Vai parar do outro lado do pátio, junto da janela do apartamento em que Gabriele endereça um grande número de envelopes, numa mesa em que há um revólver. Gabriele, o espectador percebe, está prestes a usar o revólver contra si próprio – mas nisso toca a campainha; Antonietta, a vizinha desconhecida, explica que seu papagaio está junto da janela dele.

Estamos aqui com uns 15 minutos de filme, e vamos começar a ver o relacionamento que se desenvolverá entre aquela mulher cansada, frustrada, sem brilho, sem vida própria, e aquele homem, ao longo de um dia inteiro em que os aparelhos de rádio transmitem todos os detalhes da festa de reunião dos dois ditadores.

Diversas sinopses revelam fatos que o filme só explicitará quando já estiver avançado em sua metade final. Até a caixinha do DVD dá os spoilers. Acho isso um crime. Não sei se alguém que ainda não viu Um Dia Muito Especial vai ler esta anotação – mas, mesmo assim, não vou fazer a indignidade de dar informações que Scola leva mais de uma hora para entregar.

Um cineasta apaixonado pelo cinema e pelos grandes afrescos

Scola, um dos maiores cineastas da Itália, esse país que tem uma das mais brilhantes cinematografias do mundo, adora o cinema, os filmes – e tem uma especial paixão por grandes afrescos, filmes que contam histórias que avançam por várias décadas, a Grande História atrás, emoldurando a história dos seus personagens. Nós que nos Amávamos Tanto, de 1975, retrata a Itália desde a Segunda Guerra até aqueles meados dos anos 70. O Baile, de 1983, retrata a vida na França ao longo de quase todo o século XX. Em A Família, de 1987, vemos a história de uma grande família ao longo de várias décadas.

É fascinante ver como aqui ele optou pelo inverso: concentra toda a ação em um único dia, una giornata particolare, um dia muito especial tanto na Grande História quanto na história desses dois personagens afundados em sua profunda solidão.

Em Nós que nos Amávamos Tanto, ao retratar a Itália entre os anos 40 e 70, através das histórias de três homens que amam a mesma mulher, Scola faz, também, um inventário do próprio cinema italiano, do neo-realismo do imediato pós-guerra até a época em que foi feito o filme. Embora não use o nome do colega de profissão, cita o estilo de Antonioni, o cineasta que começou no neo-realismo e depois de concentrou na dificuldade de comunicação entre pessoas da burguesia. Cita Fellini com todas as letras, ao colocar seus personagens participando da filmagem da famosíssima cena em que Anita Ekberg entra na Fontana di Trevi, de A Doce Vida, e não só cita Vittorio De Sica como coloca o próprio cineasta para participar da história.

Ao reunir Sophia Loren e Marcello Mastroianni num conjunto habitacional de Roma, Scola estava também, de maneira óbvia, fazendo uma citação do cinema italiano. A maior estrela e o maior astro italianos dos anos 60 até os 80 já haviam trabalhado juntos em diversos filmes marcantes, de grande sucesso. É óbvio que, ao ver Um Dia Muito Especial, qualquer espectador italiano – ou brasileiro, ou australiano, ou egípcio, ou o que for – se lembraria do casal. Eles contracenaram em Casamento à Italiana, de 1964, de De Sica, nos três episódios de Ontem, Hoje, Amanhã, do mesmo ano e do mesmo De Sica, em Os Girassóis da Rússia, de 1970, também de De Sica, em A Mulher do Padre, de 1971, de Dino Risi.

A seqüência de Ontem, Hoje, Amanhã em que Sophia faz um strip-tease diante de um entusiasmado Mastroianni é uma das mais antológicas do cinema italiano.

E só por isso, por reunir os dois grandes atores, os dois monstros sagrados, neste filme, por estar assim citando obras importantes do cinema italiano, já seria de se aplaudir Um Dia Muito Especial.

Sophia e Mastroianni estão, aqui, em papéis bem diferentes dos que foram mais usuais em suas carreiras. Sophia fez muitas mulheres simples, mulheres do povo – mas sua beleza extraordinária sempre foi realçada, enriquecida, glamourizada. Aqui, é o contrário: ela passou, como eu até já disse, por um duro processo de desglamourização; está bem mais magra do que em outros filmes; está absolutamente diferente daquela Sophia bastantosa (meu Deus do céu e também da terra, e põe bastantosa nisso!) da cena do strip-tease de Ontem, Hoje, Amanhã. E Mastroianni, em outro caso de escolha de papel oposto ao mais comum, está a anos-luz do bonitão charmoso, conquistador irresistível, de A Doce Vida ou Oito e Meio, para citar apenas dois de seus muitos filmes.

Estão brilhantes, Sophia e Mastroianni, como os pobres, solitários, sofridos, doídos personagens de Um Dia Muito Especial.

E Scola, esperto, inteligente, aproveitou ao máximo o fato de estar contando uma história em que os dois são os protagonistas, e todos os demais atores aparecem pouquíssimo. Em quase todas as tomadas em que Antonietta e Gabriele estão juntos, a câmara de Scola focaliza os dois ao mesmo tempo.

É um grande prazer, para qualquer pessoa que goste de cinema, ver, na mesma tomada, Sophia Loren e Marcello Mastroianni.

Uma brutal condenação do povo italiano por ter seguido Mussolini

Marcello foi indicado ao Oscar de melhor ator, e o filme foi um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Teve as duas mesmas indicações para o Globo de Ouro, e levou o prêmio de melhor filme estrangeiro. Na França, levou o César de filme estrangeiro e participou da mostra competitiva de Cannes. Na Itália, levou o David de Donatello de melhor direção e melhor atriz.

Leonard Maltin dá 2.5 estrelas e, em duas linhas, faz o spoiler, conta o que Scola leva mais de uma hora para dizer.

Pauline Kael fala da beleza de Sophia: “Sophia Loren, sem cosméticos visíveis, usa um vestido caseiro desmazelado. Mas tendo como produtor o marido e Pasqualino de Santis como o cameraman iluminador, quem precisa de maquilagem e roupas bonitas? Ela nunca esteve mais deslumbrante ou deu uma interpretação tipo grande dama com tão completo domínio. Este filme é perfeitamente dosado para sua pontinha de coragem: grandes astros interpretando papéis não característicos.”

Ahá: eu ainda não tinha lido isso quando falei exatamente a mesma coisa, alguns parágrafos acima.

Aí Pauline Kael entrega o spoiler, e eu pulo o trecho. E ela prossegue:

“A humilhação dos dois forma uma atração mútua durante algumas horas ao percebermos que a sociedade os tratou com injusta crueldade. É realismo em moldura dourada. Este é um extenuante exercício de Ettore Scola num estilo que se poderia chamar de imprudência com finura.”

Em Off-Hollywood Movies, Richard Skorman, que dá para o filme 5 estrelas, a maior cotação, diz: “A direção de Scola é brilhante, captando emoções sutis em praticamente cada cena, ao mesmo tempo em que brutalmente acusa os italianos por terem seguido cegamente Mussolini e o fascismo. Até a trilha sonora de A Special Day, que consiste na sua maior parte da narração da cerimônia de que participam Hitler e Mussolini, serve como um fascinante documento histórico, ao mesmo tempo acentuando a repressão política e pessoal sobre as vidas de Gabriele e Antonietta.”

Ótima observação, essa: sim, o filme acusa brutalmente o povo italiano por ter seguido Mussolini e o fascismo. Esse é o pano de fundo de todo o filme. Um único personagem do filme não compactua com aquele ufanismo imbecil, babante – e os Estados totalitários não admitem contestação alguma, como veremos mais uma vez confirmado no tristíssimo final desta narrativa brilhante.

Um Dia Muito Especial/Una Giornata Particolare

De Ettore Scola, Itália-Canadá, 1977

Com Sophia Loren (Antonietta), Marcello Mastroianni (Gabriele)

Argumento e roteiro Ettore Scola, Maurizio Costanzo e Ruggero Maccari

Fotografia Pasqualino De Santis

Música Armando Trovajoli

Montagem Raimondo Crociani

Produção Carlo Ponti, Canafox Films

Cor, 105 min

****

Título nos EUA: A Special Day


Awards for - PRÊMIOS
Um Dia Muito Especial (1977) Una giornata particolare (original title)



Academy Awards, USA
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1978 Nominated Oscar Best Actor in a Leading Role
Marcello Mastroianni
Best Foreign Language Film
Italy
Cannes Film Festival
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1977 Nominated Palme d'Or Ettore Scola
César Awards, France
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1978 Won César Best Foreign Film (Meilleur film étranger)
Ettore Scola
David di Donatello Awards
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1978 Won David Best Actress (Migliore Attrice)
Sophia Loren
Tied with Mariangela Melato for Il gatto (1977).
Best Director (Migliore Regia)
Ettore Scola
Golden Globes, Italy
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1977 Won Golden Globe Best Actor (Migliore Attore)
Marcello Mastroianni
Best Actress (Migliore Attrice)
Sophia Loren
Best Film (Miglior Film)
Ettore Scola
Golden Globes, USA
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1978 Won Golden Globe Best Foreign Film
Italy
Nominated Golden Globe Best Motion Picture Actor - Drama
Marcello Mastroianni
Italian National Syndicate of Film Journalists
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1978 Won Silver Ribbon Best Actress (Migliore Attrice Protagonista)
Sophia Loren
Best Score (Migliore Musica)
Armando Trovajoli
Best Screenplay (Migliore Sceneggiatura)
Maurizio Costanzo
Ruggero Maccari
Ettore Scola
National Board of Review, USA
YearResultAwardCategory/Recipient(s)
1977 Won NBR Award Top Foreign Films